sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Capítulo I

Já era tarde e a noite estava um pouco mais fria que o normal; mas isso não parecia importar muito para ele, sua cabeça rodava junto com as luzes velozes dos carros a sua direita, as vozes das pessoas a sua esquerda e a fumaça do cigarro a sua frente. Tudo isso mais aquela sensação de semi-bêbado o envolvia e o levava para o mais distante dentro de si mesmo que ele já havia conseguido chegar. Ele realmente não conseguia decidir onde era melhor ficar: sua cabeça não era um lugar agradável naquele momento, a rua também não, mas como ele já conhecia aquela avenida como a palma de sua mão e sua cabeça ainda era um tanto estranha a ele, decidiu ficar lá dentro - até porque, como eu já disse antes, a avenida estava fria.
Ele não tinha muito o que fazer aquela noite, então sua decisão de onde ficar começou a parecer inútil, mas ele chegou a conclusão que também não tinha muito o que perder, então decidiu fazer a única coisa que o impedia de se sentir mal. Separou o dinheiro para a passagem de volta e com o que sobrou deu para comprar uma garrafa de vinho barato, agora que já tinha uma companhia para o resto da noite decidiu sentar-se na porta de um edifício velho e esperar alguma coisa que o motivasse a se mexer. O lugar era fedido, tinha um cheiro forte de urina, provavelmente deixado lá pelo grupo de mendigos que falava alto um pouco mais a frente, mas que no momento não o incomodariam porque ele havia decidido ficar dentro de si mesmo. Claro que para concretizar sua decisão era preciso de um meio de transporte, então agora o vinho barato começa a ter utilidade; abrir a garrafa teve lá sua dificuldade, e o primeiro gole não foi diferente: o vinho era ruim mesmo - mas por cinco reais o litro ele não perderia essa oportunidade. Como ele já não estava exatamente o que chamamos de sóbrio, não foram necessários muitos goles para a viagem começar. Era um turbilhão preto e branco que rodava na velocidade de Can't make a sound e o fazia passar por imagens e frases indecifráveis e lhe trazia um sentimento de vazio que parecia roubar a única parte dele que se sentia cheia; e óbvio que tudo isso trazia também a garrafa de vinho para mais perto da boca e a necessidade de um cigarro. Ele termina o turbilhão numa explosão. Ele sempre via essa explosão. O céu azul misturava as cores preto e branco e ficava cinza, tudo doía por dentro e ele sentiu que tinha chegado longe demais, estava na hora de sair de dentro dele e olhar pro lado.
Foi realmente incrível sair daquela explosão e ver aquela garota. Ele não havia reparado quando ela tinha chegado - e se culpava por isso - mas ela era linda. Seus cabelos eram pretos e arrumadamente bagunçados, sua pele era bem branca, seus olhos eram grandes e até suas roupas eram bonitas.Ela usava uma blusa preta com uma estampa amarela - ele nunca gostou daquela combinação, mas nela ficava bonito -, uma calça jeans skinny e um all star sujo de cor irreconhecível. Mas não eram suas roupas nem sua feição que a faziam parecer bonita, era o fato d'ela estar chorando. As pessoas parecem mais bonitas quando estão tristes. Ele precisava falar com ela, ou pelo menos se sentia como se precisasse, mas simplesmente não conseguia: "Ela não falaria comigo. Eu tenho certeza que não. Ela tem um brilho... jamais se sujeitaria a falar comigo." Ele começaria uma guerra interna se não falasse com aquela garota, então alguma coisa o provou que aquele brilho que ela tinha era só a lâmpada do poste refletida em seus olhos grandes e cheio de lágrimas. Uma vez que estava decidido a falar, foi só usar de uma das suas necessidades (e seu estado de sobriedade) para que a conversa começasse:
- Você tem um cigarro? - foi o melhor que ele conseguiu.
- Quê?.... ah, não, eu não fumo. - ela respondeu entre um soluço e uma lágrima.
- Ah, nem eu. Tudo bem, vai, de vez em quando... sei lá, eu queria um agora. Tá, na verdade mesmo eu só queria falar com você, e isso foi a primeira coisa que me veio a cabeça. - pelo menos ele foi honesto.
- Hahaha - sua risada era doce - isso foi fofo.
- Isso o quê? - lerdo.
- Isso o que você fez: usar essa desculpa idiota só para falar comigo. As pessoas não costumam falar comigo. - pelo jeito que ela enxugou as lágrimas com a manga da blusa pareceu ter gostado dele.
- É que as pessoas são burras, compreensível que não falem com você. - talvez não tão lerdo.
- Hahahah. Pode ser. O que você faz por aqui uma hora dessas?
- Não sei. - ele respondeu de prontidão porque realmente não sabia.
- , como não?
- Eu vivi minha vida toda sem saber porque estou aqui, então o motivo d'eu estar sentado numa calçada suja às três e meia da manhã não me parece uma questão primordial. Mas, e você? Está chorando por que? - A sua primeira frase pareceu meio agressiva, mas acho que foi um mecanismo de defesa. Medo de alguma coisa que ele não sabia explicar; e eu também não.
- Ah, não foi nada de importante, pelo menos não para você. - agora os dois pareciam estar com medo.
Bem, o diálogo seguiu nessa troca de farpa -atraente para os dois - por um bom tempo. Ah, se vale citar, ele conseguiu o cigarro e ela acabou fumando junto. Mas o importante é que não sei se pelo efeito do álcool, pela carência ou pela junção dos dois, ele (já) se sentia atraído por ela. E se sentia mal por isso, mas é de se entender, já que ele mal a conhecia. Ele não estava acostumado a gostar das pessoas, muito menos em tão pouco tempo assim. Tinha alguma coisa nela que ele não conseguia explicar, e mais uma vez o álcool viria a lhe ser útil... ele aproveitou o fato de estar visivelmente alterado e perguntou:
- Ahn.... posso...te...te...te beijar?
- Seria melhor se tivesse beijado sem perguntar. - ela respondeu com um olhar espantosamente natural.
Ele se aproximou dela, colocou a mão carinhosamente em seu rosto, de forma que os dedos acariciavam a nuca e o polegar esquerdo o rosto da garota; e depois de admirá-la por um tempo ele finalmente a abraçou com o braço direito e a beijou. E aquele turbilhão começou de novo, mas dessa vez era colorido e não o levava para dentro de si mesmo, e nem o preenchia com vazio - por mais contraditório que isso pareça. Ele se sentia quente e vivo, tomado por tranqüilidade. Estava num lugar desconhecido, mas que não era ruim. Ele era o próprio Elliott Smith na capa do Figure 8. Mas como todo o resto no mundo, o beijo também acabou; e ele continuou a admirá-la por mais um tempo até que se lembrou de perguntar uma coisa importante:
- Qual o seu nome? - Tudo bem, é bem lerdo mesmo.
- Hãn, já são quase cinco horas, o metrô já deve estar funcionando, tenho que ir... desculpa.
- Espera! Por que você vai fazer isso? Ir embora assim, sem nem me dizer seu nome. - ele realmente estava atraído por ela.
- Porque é isso o que eu faço. As pessoas gostam de mim, e eu as abandono. Depois choro por elas. - essas palavras junto com o olhar que ela deu o quebraram por dentro ( mais uma vez).
Ele até se levantou e tentou dizer alguma coisa mas isso não a impediu de pegar sua bolsa e ir embora. E por melhor que tenha sido aquele beijo, o que ficou mais forte na lembrança dele foi aquele último olhar que ela o lançou. Era o melhor misto de sarcasmo, maldade e inocência que alguém já conseguiu fazer. Ele não sabia se tinha olhado para uma mulher que após tirar toda a roupa e dançado eroticamente disse que não queria transar ou para uma garota de sete anos de idade que estava se desculpando por ter incendiado a casa; mas ele se sentia como se ela tivesse feito os dois. Igual a Travis quando se decepcionou com Betsy em Taxi driver. Aliás, ele se sentia Travis em dobro, porque agora ele parecia sentir a solidão mais do que nunca.

5 comentários:

baps :] disse...

MEUDEUS, tk.
nossa.
FODA DEMAIS.

e bem no estilo de lover i don't have to love, mesmo. se isso virar um filme algum dia, tem que fazer parte da trilha sonora. AMEI *-* e obrigada por postar :] mesmo mesmo. vou passar dias pensando nesse capítulo, SUAIEUASEHUIASEH. posta logo o segundo *-*

Anônimo disse...

nossa! realmente demais o capítulo!
não vou dizer que dispensa comentarios, porque sinceramente seria deprimente. Na verdade merece um bom comentario, mas não sei como faze-lo.

incrivelmente atraente o seu personagem e a mente dele. tenho sede de ler mais, irmãozinho!! Fez um bom trabalho.
um beijo e um abraço, caraa!

Marcela Carvalho disse...

bom trabalho, tk!

mal posso esperar para ler a sucessão deste texto.
a maneira como narraste a história, me faz lembrar as narração de machado de assis e dostoiévski. a riqueza dos detalhes descritivos também é um fator que favorece a história, além dos personagens extremamente cativantes.


muita paz! ^^

baps :] disse...

a cada vez que eu leio eu gosto mais.

Anônimo disse...

Simplesmente inexplicável...

Juro que eu li, e logo depois pensei em como explicar o porque do texto ter me atraído, mas mesmo assim, não consegui!!