segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Capítulo III

Aquela manhã estava mais barulhenta que o normal e foi isso que o acordou. Bem, nem todas as garotas que trabalhavam na mesma casa noturna que a sua avó tinham onde ficar, então como a casa dele era grande, uma parte das garotas "morava" lá também; e naquela manhã elas eram as responsáveis pelo barulho. Ele levantou desnorteado e foi procurar alguém pudesse explicar o motivo daquela barulheira toda, como a casa estava cheia não demorou muito para achar uma resposta. Resposta que por sinal o deixou chocado: haveria uma festa em casa; festa da filha de uma das meninas que moravam lá - ele nunca sabia quem morava lá e quem só visitava.
A notícia da festa o pegou de surpresa, e se não fosse o ânimo e ritmo com que as pessoas da casa trabalhavam ele não acreditaria que ali teria uma festa; muito menos uma festa para uma menina que estava fazendo oito anos. A sujeira da casa parecia ser proporcional ao seu tamanho e isso tem lá sua lógica. Havia pelo menos dois colchões em cada cômodo e um número incontável de garrafas e cinzeiros em todos eles; nessa ocasião também é importante citar o cheiro de sexo em alguns quartos - não que as garotas levassem clientes para lá, mas você realmente acha que toda prostituta é hétera? Que nada, a maioria delas enjoam da coisa e "viram" lésbicas. De vez em quando ele se metia nessas orgias também... acho que elas gostavam dele por sua inocência, anyway, isso não vem ao caso. - ele realmente não conseguia imaginar uma festa lá, mas acabou sendo escalado para ajudar na limpeza da casa.
Eram três da tarde e ele se impressionou com o resultado: nunca havia visto a casa da avó tão limpa! A festa estava pronta para começar, só faltava a aniversariante... e algumas garotas que freqüentavam a casa também. Agora a idéia da festa já lhe parecia agradável, afinal, ele poderia beber em casa sem gastar dinheiro e, talvez, numa possibilidade remota, se divertir um pouco. Como agora era só esperar, ele pegou uma latinha meio quente de cerveja e se afundou num sofá velho da casa. A cerveja nem precisou acabar para a dona da festa chegar. Que incrível, a garota de oito anos era idêntica a uma das garotas que ele sempre via na casa. Aquilo foi um choque enorme, ele não sabia que putas tinham filhos, muito menos que se importavam com eles. E de repente todas as garotas que estavam faltando na casa começaram a chegar: umas com bebês de colo, outras com crianças pequenas, algumas com duas ou três crianças e num piscar de olhos aquela casa que já foi suja e escura parecia inundada de felicidade trazida por pequenas criaturas encantadoras correndo para lá e para cá.
"Como pode?", ele se perguntava. Aquele eram legítimos filhos das putas, e era a primeira vez que ele pensava isso sem o mínimo de maldade. Ele se sentiu me inútil por estar tão espantado com aquilo; por que garotas de programas não podem ter filhos? A música infantil, a risada das crianças e o sorriso das mães partiram se coração: "Elas são felizes, ou pelo menos tentam, Elas têm filhos e são amigas umas das outras, elas dão risadas. E dá para ver pelos seus olhos que não estão forçando. Como conseguem serem felizes tão facilmente?" ele sabia que a felicidade não existia, então nunca seria feliz. Mas e elas? Elas acreditavam na felicidade, então por pior que suas vidas fossem, em algum momento elas poderiam sentir algo que chamassem de felicidade. Aquilo mudaria bastante a forma de ver a casa da sua avó; no fundo ele gostava de morar com putas, ele achava que elas eram iguais a ele, o que o fazia se sentir um pouco menos "loser". Agora ele voltara a ser o mais loser do lugar onde estava. Essa sensação o deixou mais atordoado que seu primeiro porre, mas como agora ele já estava acostumado com porres, achou que precisava de mais um: pegou outra latinha, bebeu metade num gole e completou o resto com vodka. Antes de tomar o primeiro gole do seu drink se afundou naquele mesmo sofá velho, mas dessa vez tinha a companhia de uma garota que sempre via na casa, mas não sabia se ela morava lá.
Ele não sabia muito sobre ela, só que seu nome era Amanda e que ela tinha 19 anos. Ele nunca entendeu porque garotas tão novas já escolhiam essa vida; depois de pensar bastante ele chegou a conclusão que era por causa do dinheiro - era a única explicação cabível, porque outra coisa que influi muito nas decisões das pessoas é o orgulho, mas ele não via orgulho nenhum em vida de puta; vai ver por isso que tinham filhos, para ter do que se orgulhar. Ele parou de pensar um pouco e voltou a olhar para a garota, ela era bonita, muito bonita. Um pouco menor que ele, cabelos curtos pretos e azuis. Usava lente verde. Mas o que mais chamava a atenção era a tatuagem de uma borboleta rosa que havia do lado direito de pescoço dela, era uma tatuagem linda. Agora vocês já sabem a descriação da garota, mas ele cotinuava confuso, vai ver por isso que falou baixinho:
- Eu não sabia que putas tinham filhos.
Ela olhou para ele como se ele tivesse dito que não sabia que Jesus tinha morrido.
- Vai dizer também que não sabia que puta é gente?
Ele não esperava que ela ouvisse; olhou para ela como se ela tivesse perguntado se ele não sabia que Kurt Cobain estava morto.
- Eu só não sabia que pessoas com essa vida... miserável, sem ofensas, pudessem pensar em procriar. Isso me parece estupidez.
Ela olhou para cima e bebeu o último gole do que quer que seja que havia em seu copo:
- Garoto, os filhos são as esperanças delas. Elas provavelmente nunca cheguem a ser feliz, mas têm esperanças de que seus filhos um dia consigam. Elas não querem sair do mundo achando que ele é um lugar horrível e infeliz. Como você se sentiria sabendo que pasou a vida toda num lugar onde era melhor estar morto? Você não pode tirar a esperança das pessoas.
Ele recebeu aquilo como um soco no estômago. Ele sempre via as crianças como sendo uma marca que os pais queriam deixar de que passaram pela Terra, mas a explicação dela fazia mais sentido. Ele nunca pensou que as pesoas " de vida miserável" tinham nos filhos a esperança. Ele sabia que a vida de sua mãe não tinha sido miserável, mas será que depois d'ela ter visto tanta desgraça por aí não fora por isso que o pôs no mundo? Na esperança de que ele encontrasse um mundo melhor? De alguma maneira aquela dúvida o incomodava bastante.
Ele imitou o gesto da moça com a latinha de cerveja e vodka:
- Você tem filhos?
- Não, eu já perdi as esperanças; junto com a minha filha.
Ele estava começando a se interessar pela história da garota que até então era só... mais uma puta.
- O que aconteceu? - ele não se conteu em perguntar.
- Complicações no parto. Nasceu morta; daí virou essa borboleta no meu pescoço.
Ele não queria mais que ela falasse, a voz dela agora parecia o estalo seco de um tapa, e ele parecia sentir cada tapa; mas isso não o impediu de continuar a conversa. Ela parecia tão interessante que ele se arrependeu de não ter conversado com ela antes. A conversa seguia num ritmo bom e tratava de vários assuntos, assuntos que ele nunca imaginou que poderia conversar com aquela garota; mas a conversa foi interrompida quando ela pegou uma agenda preta que estava em sua bolsa e a colocou perfeitamente em cima do colo, se certificando de que não estava nem um centímetro torta - a perfeição e singularidade dos movimentos lembravam um ritual. Feito isso ela tirou um saco marrom da bolsa e despejou o pó branco que estava dentro em cima da agenda preta, formando uma linha perfeita. Se abaixou lentamente em direção a carreira e vap! num piscar de olhos a agenda voltou a ser totalmente preta. Ela segurou forte na coxa dele e fez uma cara que ele só havia visto antes em filmes pornôs e algumas vezes nas orgias dentro dos quartos. Ele acenou negativamente com a cabeça:
- Isso é para substituir sua filha?
Ela deu uma risadinha débil:
- Não seja tolo! Já disse que minha filha virou esta linda borboleta - ela passou a mão pelo pescoço - Isso matou minha filha e agora me dá esperança.
- Que esperança isso te traz?
- De que vou morrer cedo.
Ele não esperava por isso; abaixou a cabeça por um tempo e depois olhou nos olhos dela:
- Por que não se mata de uma vez?
Ela parecia estar esperando por essa pergunta
- Se eu corto meus pulsos, é suicídio; quer dizer que eu era uma fraca que não agüentou a vida. Se eu morro por causa das drogas, era só uma pobre garota com uma vida difícil que no meio do caminho acabou se desviando e teve um fim trágico... Mas, sabe garoto, tem outra coisa que pessoas "de vida miserável" como eu fazem para se distrair quando não temos crianças nem drogas.
Antes que ele pudesse perguntar o que era, ela se levantou categoricamente, segurou em sua mão direita e o levou para um quarto; chegando lá o jogou na cama e trancou a porta.

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