sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Capítulo IV

Já era meio dia, o almoço não estava pronto ainda, mas ele estava sem fome, então isso não importava muito. Para quebrar aquele começo de tarde monótono só mesmo o toque do telefone; quero dizer, não o barulho, mas a sim voz aflita de mulher pedindo para falar com ele: era a mãe da Luísa, uma velha amiga sua, dizendo que a garota tentara cometer suicídio e que agora queria falar com ele. Ele jamais perderia uma oportunidade de ver a Luísa, ainda mais numa situação dessa. Desligou o telefone e foi tomar um banho rápido só para mudar a cara de sono. Terminou o banho e colocou qualquer roupa, cortou um pão pela metade com a mão, enfiou o pedaço na boca e saiu de casa. Andou rápido em direção ao ponto de ônibus, chegando lá acendeu um cigarro na esperança de comprovar a teoria de que o ônibus sempre chega quando você decide fumar. E deu certo.
É interessante falar que embora ele corresse e se apressasse, ele não estava realmente com pressa. Ele não estava preocupado em chegar lá rápido, pelo menos não para vê-la, mas talvez apenas para mostrar a mãe dela que chegou rápido. Ele tinha o péssimo hábito de fingir sentimentos; e há muito tempo não sentia sentimentos afetivos de verdade, mas como ele ainda tinha um rastro de conceitos humanitários, então achava que era obrigação dele gostar e se preocupar com as pessoas. Então, mesmo que ele não gostasse e não se preocupasse dizia que sim – inclusive para si mesmo – e agia com se fizesse. É meio difícil de dizer se isso se aplica a Luísa. Ele já gostou muito dela, daí hoje não sabe se ainda gosta ou se só sofre reflexos do tempo em que ele era Werther e ela Lotte.
O tempo de viagem de casa até o hospital foi longo e desinteressante, então me sobra tempo para falar um pouco mais da Luísa. Ele a conheceu há muito tempo atrás, num clube onde os dois e mais um amigo costumavam ir. Ele ia lá para falar com os amigos e se divertir – ele nem sempre foi como é agora; houve um tempo em que ele gostava das pessoas -, isso foi logo depois de sua mãe ter morrido, então, fazia bem para ele essa distração. Já ela ia lá para correr e praticar outros esportes, em parte ela gostava disso, dessa idéia de vida saudável e tal e a parte que sobra tem grande influência da mãe dela, que manifestava na garota o ideal de filha perfeita: estudiosa, bonita, atleta, inteligente, educada, etc. A influência da mãe da garota sobre ela contribuiu bastante, mesmo que indiretamente, para que ele gostasse dela – aliás, a mãe da Luísa contribuiu bastante para tudo na vida dela. É bem estranho mas toda essa cobrança e apoio que a garota tinha por trás dela a proporcionaram uma auto-confiança e segurança enorme. E isso era exatamente o que faltava para ele na época... ele estava meio perdido. E por mais forte que aparentasse ser, se sentia fraco, ou como eu já disse, perdido. Ela também era assim, mas nenhum dos dois sabiam que ela era fraca. Enfim, não sei porque raios, ele se apaixonou perdidamente por ela; mas ela era forte, não precisava dele como nada mais do que amigo. E foi assim que ele Virou Werther e ela Lotte, os dois eram ótimos amigos, ele sofria por ela e ela sabia; acho que foi por isso que depois dela ele não conheceu amor de verdade...
Calma, preciso parar neste momento. O ônibus parou num farol e o estresse dele aumentou; calor e trânsito não é bom para ninguém. Ele batia o pé no chão e dava longos suspiros de tédio enquanto ouvia as mulheres no banco de trás conversar sobre a novela e sobre a vizinha barulhenta ; ele apoiou a cabeça no vidro a sua esquerda olhando para baixo e levantou a cabeça lentamente e se deparou com uma garota que andava na calçada com um grupo de amigos. Ela não era muito bonita, mas ele gostou do jeito que ela ria e arrumava o cabelo ao mesmo tempo. Ele ficou fitando a garota até ela sair de sua vista e depois sentiu um pequeno aperto no peito. Se ao menos ele pudesse ter falado com ela... O farol abriu, o motorista acelerou e ele voltou a bater o pé e olhar para baixo – outro péssimo hábito dele era “se apaixonar” momentaneamente.
Agora voltando ao que estávamos falando, vou explicar como a mãe dela contribuiu bastante para as coisas. A própria tentativa de suicídio da garota é influência dela. Não quero dizer que a mãe da Luísa queria que ela morresse, mas por querer o completo contrário que a Luísa quis morrer. Como eu já disse, a mãe manifestava na garota o ideal de filha perfeita e isso tem um preço. Luísa cresceu acreditando que que realmente era a filha perfeita, mas algumas desestruturações na família acabaram abalando a garota. Ela largou os esportes, começou a ir mal na escola, arranjou um namorado para se consolar, dentre outras “irresponsabilidades” na visão da mãe. Daí começaram as cobranças. O que aconteceu com a garotinha perfeita que era minha filha? O ego e o ideal de ser perfeita já estavam grandes demais na garota, daí quando mamãe começou a dizer que ela já não era mais a perfeitinha, tudo piorou; e infelizmente ele não podia ajudá-la nesta fase. Os dois ficaram um tempo distantes, e só voltaram a ser grandes amigos quando descobriram que ambos gostavam de auto-destruição, mas ele preferiam chamar de passatempo.
Mas finalmente o ônibus chegou onde ele queria e ele caminhou lentamente até o hospital, já não fazia mais questão de provar mentiras a ninguém. Embora estivesse irritado por causa do calor, se sentiu bem por estar sendo ele mesmo naquela lenta caminhada do ponto de ônibus até o hospital. Chegando lá não foi difícil encontrar a mãe da Luísa, ela estava logo na portaria – talvez esperando ele. Eles se cumprimentaram educadamente:
- Que bom que você veio. - ela disse parecendo estar abalada
- Se importa de irmos conversar lá fora?
Ele mal acabou de perguntar e já saiu andando, a mãe dela, meio sem opção o seguiu. Ele não sabia se encontraria uma saída andando para dentro do hospital, mas por sorte encontrou um pequeno jardim onde só havia um senhor numa cadeira de rodas. Ele entrou no jardim sem hesitar e ela continuou a segui-lo.
- Olha, eu menti... ela não pediu para para você vir aqui. Mas, não foi por mal!... eu achei que você pudesse me ajudar a entender porque ela fez isso.
Ele colocou a mão no bolso, puxou um cigarro e um esqueiro, acendeu, deu a primeira tragada, soltou a fumaça para o lado e olhou para baixo. Embora ele respeitasse a mulher, queria fazer questão de demonstrar sua antipatia por ela. Ele sabia que ela era responsável pela maior parte dos problemas da Luísa. Ele a achava uma mãe muito atenciosa e carinhosa, mas ainda assim sua imagem reforçava a idéia dele de não querer ter filhos. Ele se impressionava em ver como uma pessoa pode ser tão responsável pela vida de outra; pode parecer covardia, mas ele não queria aquela responsabilidade. Se os filhos dão certo, foi porque teve uma boa educação dos pais, se dão errado, a culpa também é dos pais; ele não queria correr o risco. E pensar no tanto de vezes que ela afundou a garota e depois a trouxe para cima de volta fazendo-a esquecer que um dia já caiu reforçava sua idéia de ser contra essa manipulação a vida alheia.
- O que aconteceu? - ele tinha um tom de médico impaciente e arrogante na voz.
- Nós brigamos, ela foi para o quarto como sempre faz quando isso acontece, ficou um tempo lá e quando saiu me olhou de um jeito estranho e depois caiu. Na hora eu...
- Não, não é isso. O que aconteceu para vocês brigarem? - ele mantinha aquele mesmo tom.
- Eu cheguei em casa mais cedo do serviço e ela estava usando minha cama com um rapaz mais velho que eu não me lembro de ter visto antes! E aquela não foi uma primeira boa impressão!
- Então fazer sexo é crime? Ou irresponsabilidade? E, ah, ele gosta bastante desse "rapaz mais velho".
O velho deu uma risada alta e ele se segurou para não sorrir.
- Fazer sexo não é nada disso... mas é só que, ela não tem idade! E podia ter me apresentado o rapaz.
- Pff, quando ela vai ter idade? Depois que casar? E ela não te apresentou o cara porque sabia da reação que você teria; mesmo se ela dissesse que ele era um príncipe.
- Como você sabe mais dela do que eu? - ela tinha um quê de desafio na voz.
- Nós temos a mesma idade, os mesmo problemas. Por mais diferente que os jovens pareçam, essa "diferença" é só uma maneira de encarar os problemas, que são quase sempre os mesmos; por isso jovens fazem amigos com tanta facilidade. E aliás, eu a Luísa somos ótimos amigos, te aconselho a não jogar fora a oportunidade de ser amiga dela também. Mas... em que quarto ela está?
A mãe da garota falou o número do quarto depois virou para trás e saiu do jardim. Ele deu a última tragada, uma risadinha, jogou o cigarro para o lado e andou em direção a porta e antes que saísse o velho gritou:
- Você gosta dela, não gosta, garoto? Gosta sim, !?
Ele se virou, encarou o velho por um tempo e depois deu as costas e continuou andando. Ele não queria pensar naquela resposta.
Ele parou na porta do quarto e ficou observando a garota: ela parecia tão distante olhando para aquela janela.
- Oi, Luísa. - ele deu um sorriso simpático.
- Olá! Como você está? Que surpresa!
- Bem, estou melhor do que você - ele riu enquanto andava até a beira da cama para segurar a mão dela. Os dois ficaram de mãos dadas se olhando profundamente.
- Eu conheci a morte, sabia? - ela disse de repente.
- E como ela é?
- Tão chata quanto a vida - disse ela voltando a ter o olhar distante.
Ele apertou a mão dela conforme o seu coração apertava enquanto olhava para ela.
- Que pena - ele parecia um pouco decepcionado pela forma que ela descreveu a morte - Mas há um tempo já não penso em morrer.
- Por que? - ela parecia interessada na resposta
- Porque querer morrer me lembra que estou vivo.
Seu coração agora apertava numa força que ele não poderia passar para a mão da garota; ele a encarava firmemente e se esforçava para não pensar na resposta para a pergunta do velho. Mas, para quebrar aquela situação antes que a situação quebrasse o coração dele, a enfermeira entrou no quarto e o mandou embora porque ela precisava descansar.
- Tchau, acho que amanhã eu volto. - ele soltou a mão dela, se abaixou e deu um beijo em sua boca. Se virou e foi embora.
Enquanto andava pelo corredor em direção a saída pensando em não pensar em nada, um pedido de licença e um grupo de médicos correndo quebraram sua concentração. Ele olhou para a garota da maca e percebeu que a conhecia;era Amanda, ela teve uma overdose, mas ainda estava viva e ele não sabia dizer se isso era bom ou ruim.

2 comentários:

prettybapsk disse...

aahhh omg *-*
toda vez que eu leio um capítulo eu digo "esse é o melhor". não consigo, cara, a cada dia eu fico mais empolgada com a história *-*
adorei tk, adorei. brigada por postar :)
<3

Álvaro Andrade disse...

Obrigado.

Lembrar Leminski é uma satisfação enorme, fico feliz.

Abraço.