Ainda eram dez da manhã e ele já estava acordado; odiava acordar cedo, só aumentava o tempo que teria para passar tédio. Se sentou na cama como as pernas cruzadas, bocejou e olhou para janela: havia um céu em dúvida entre azul e cinza com algumas nuvens brancas que mais pareciam algodões. Seus pensamentos ainda não estavam bem organizados quando uma das garotas entrou no quarto:
- Ah, como você já está acordado, vem tomar café!
Ele gostava quando as garotas se preocupava com ele, fazia bem para o seu ego; e algumas vezes para sua libido. Ele agradeceu, se levantou da cama, escovou os dentes e foi tomar o café. Apreciou a tentativa da garota mas o café estava realmente ruim. Mesmo assim ele tomou tudo e voltou para cama; pegou uma daquelas bolinhas que pulam se parar e ficou jogando-a para o teto, acompanhando os traços laranjas que ela deixava no ar e pensando em não pensar em nada. Fez isso por um longo tempo, até sentir seu braço doer de tanto repetir o movimento. Olhando pela janela viu um dia ainda indeciso e decidiu ir ensaiar com a banda na casa do Dimitri.
A banda também é novidade, mas acho que seria melhor eu falar do Dimitri primeiro; melhor amigo dele. A amizade deles começou na mesma época em que ele conheceu a Luísa, os três freqüentavam aquele mesmo clube, e o Dimi tinha os mesmos objetivos da Luísa, mas as coisas também mudaram. Ele gostava de falar que Dimitri é o garoto rico que deu errado, e que ele contribuiu bastante para o erro; provavelmente fora ele que despertou no Dimi aquela tendência tímida de dar errado. Eu estaria mentindo se dissesse que ele se arrependia disso – ou de muitas outras coisas. Eles provavelmente nem teriam se tornado amigos se o Dimitri fosse o riquinho certo que era no começo. Ele só estranhava o fato de um garoto de vida aparentemente boa gostar de beber e outras coisas ditas “ruins”. Desta vez ele não podia colocar as culpas no pai dele. Eles eram carinhosos e prestativos; eram como pais deveriam ser. “Então vai ver o Dimi só era assim por causa dessa angústia que todo mundo sente”, ele gostava de pensar assim, pelo menos desse jeito não se sentia sozinho.
Agora, antes de falar da banda, é preciso completá-la. Ele na bateria, Dimi na guitarra e Matt no baixo e no vocal. Nenhum dos três sabem exatamente como ele foi parar na banda; parece que se conheceram num site sobre música. O pouco que ele sabe sobre a história do Matt, é bem complexo e se parece bastante com a sua própria história. Pelo o que sesabe quando os pais de Matt se separaram ele brigou com os dois, mas continuou morando com a sua mãe; contra a sua vontade. Se dependesse dele ele moraria em qualquer lugar longe das pessoas onde pudesse escutar suas músicas em paz. Enquanto ele tocava bateria, e Dimi tocava guitarra só para descontrair e por amor a música, Matt tocava baixo porque precisava daquilo. Ele precisava sair do mundo real de vez em quando e mergulhar nas notas musicais. Os outros dois costumavam falar que ele era autista por opção, ele nunca descordou. E por essa melancolia e humor ácido que ele continua sendo o baixista da banda.
Agora sim, a banda! Devido ao pouco tempo de existência, não é uma das melhores. Mas ele não se importava com isso - nenhum deles se importava. Ele amava a bateria e a música, por isso não importa como, gostava de tocar. O seu objetivo como músico, em momento alguma foi ser famoso, ganhar dinheiro e garotas; a única coisa que ele queria é que, em algum lugar, em algum momento, alguém se sinta tão bem ouvir sua música como ele se sente ao ouvir Elliott Smith, ou na primeira vez que ouviu Not of the fallen, do Upcdowncleftcrightc + start. Ele se sentia em dívida com música por tudo que ela já fez a ele, por isso decidiu fazer igual. Além disso, ele acreditava na música mais do que nas outras artes: as pessoas não vão mais a museus, nem ao cinema ou ao teatro, mas estão sempre ouvindo música. No ônibus, no metrô, no serviço, na escola, na rua. Em qualquer lugar. Ele inclusive percebeu que as pessoas ouvem até livros!
Eles ensaiaram a tarde toda, sem planejamento. Cada um com seu instrumento tocava mergulhado em seus próprios instrumentos e o som saía agradável. Tá, não era bem assim, mas eles não tinha conhecimento o suficiente para fazerem notas, então era mais ou menos isso o que acontecia. No final da tarde Matt estava cansado e quis ir para casa; ele e Dimitri decidiram sair só para não ficarem em casa sem fazer nada. Dimi tinha uma namorada, a Verônica, e pediu para ele se encontrar com eles mais tarde; isso o fez perceber que passaria a noite sozinho, por mais acompanhado que estivesse. Ele já estava tão acostumado com isso que nem se importou, e decidiu fazer o que sempre fazia. E fazia bem: ficar bêbado. Antes de chegar no local combinado, ele pediu para o Dimitri ir comprar a boa – mentira – e velha garrafa de vinho barato. O Dimitri até o agradeceu pela idéia, embora tenha ficado chateado por Verônica, sua namorada, não ter deixado-o beber muito; Verônica era a garota rica que deu certo e tentava concertar o Dimi.
Enquanto estavam sentados no bar, ele percebeu que para o seu azar, nem Dimi nem Verônica queria conversar, então a noite estava começando a ser exatamente do jeito que ele imaginou que seria: solitária; por maior que fosse o número de pessoas perto dele. Como eu já disse, ele já estava acostumado em ficar sozinho, mas aquela noite estava mais incômoda que o normal, afinal, era para ser divertida; ele nunca imaginou que seria, mas era para ser. Na esperança de ficar um pouco menos sozinho, pediu outra garrafa de cerveja. O primeiro copo desceu como água, mas os outros dois nem haviam encostado nos seus copos, então ele não quis pedir outra para não esquentar. Decidiu então apelar para a garrafa de vinho, que ainda tinha mais do que a metade e acender um cigarro para matar o tempo
Ele ainda não estava pronto para outra viagem para dentro de si mesmo, além do mais, estava uma noite de temperatura agradável, era melhor ficar ali fora mesmo. Então foi o que ele fez, ficou ali bebendo ora vinho, ora cerveja, mas sempre observando as pessoas. Ele se impressionava em como elas riam e brincavam! Se divertiam com seus amigos. No fundo, ele tinha vontade de falar com elas, de se divertir também. Mas parecia existir nele uma parte que gostava de se sentir mal, de se auto-destruir; uma parte nascida para ser fracassada e que fazia isso tudo parecer perfeito. Ele não gostava da parte que queria que ele se sentisse bem, porque ela a fazia sentir inveja das pessoas, ele simplesmente não conseguia se sentir bem. Então, foi assim que nasceu essa repulsa pelas pessoas, quase que por inveja. Mas o importante é que ele não falava com as pessoas, nem com as que pareciam ser legais e menos ainda com as que não pareciam, com essas por arrogância, e com as outras por medo de ser rejeitado mesmo; o que no final acabava virando arrogância do mesmo jeito, porque ele sempre chegava à conclusão de que não precisava delas mesmo – e realmente parecia não precisar.
Essa solidão acompanhada o levou a pensar numa teoria... “eu não preciso ter amigos, eu tenho cigarros e bebidas. As chances de você conseguir um amigo de verdade em dez tentativa, é de um , as outras novas se tornarão encheções de saco ou falsidade recíproca. É aquelas que você conseguir, vão te dar trabalho para mantê-las. Enfim, amigos são como gordura: você precisa, mas em pouca quantidade. Em grande quantidade, ambos incomodam. Agora com cigarros e bebidas, não é assim, as chances de você conseguir um dos dois é de onze em dez tentativas E todos vão ter o mesmo gosto e causar o mesmo efeito. Além disso, acabou, é só jogar fora.”... ele se impressionou em como conseguiu pensar algum tão idiota e que, ao mesmo tempo, fazia sentido; e mais uma vez provava que ele não precisava das pessoas. Ele continuo bebendo enquanto observava os outros rirem e tentava não pensar na Luísa. A voz rouca de um homem o ajudou a mudar de pensamento:
- Moleque, arranja um cigarro?
Ele levou alguns segundos para conseguir processar o pedido. Depois pegou o cigarro
entregou para o homem, que lhe respondeu:
- Ih, conheço esse teu olhar.
Ele esrtranhou a frase e decidiu olhar melhor para o homem. Embora desse para perceber
que ele morava na rua, ele até que estava bem vestido, não parecia um mendigo – se comparado aos outros mendigos.
- Não entendi – ele respondeu achando legal que alguém como aquele homem fosse falar com ele, afinal, se os opostos se atraem e um cara daquele fala com ele, quer dizer que ele não está tão mal assim.
- Quando eu vim para as ruas, garoto, eu trouxe um espelho comigo e vivia olhando para ele.
E eu sempre via esse olhar. Não precisei pensar muito pra perceber que meus olhos falavam o que eu pensava, o que eu queria: eu queria que as pessoas viessem falar comigo, que fossem gentis comigo, que me dessem atenção!
- Por quê você veio para as ruas?
- Porque eu queria liberdade! Eu queria que parasse de me dizer o que fazer! E acabei me tornando o mais dependente dos outros do que uma pessoa pode ser, eu dependo deles para sobreviver! Há-há! - O mendigo riu alto, mas ninguém parecia ouvir, estava ocupados demais conversando.
Ele havia encontrado a pessoa perfeita para contar sua teoria sobre amigos e bebidas; olhou para Dimi e Verônica para saber se eles queriam ouvir também, mas os dois estavam perdidos no meio de um beijo. Ele se virou para o mendigo:
- Eu tenho uma teoria sobre amigos e álcool...
Ele repetiu sua teoria sem dificuldades enquanto pensava nas palavras que aquele homem estranho havia lhe falado. “Será que eu só quero atenção das pessoas?” E antes que percebesse sua teoria já havia acabado.
- Há-há! - o mendigo riu igual da última vez – você é um gênio, moleque! Mas agora deixa eu
terminar de contar minha história. No começo eu queria que as pessoas me dessem atenção, daí percebi que era dependente de atenção. Mas sabe o que elas me davam? Dinheiro! Daí parei de gostar das pessoas, elas que morram! E quer saber só? Não faz diferença nenhuma! Desde que esses merdas continuem me alimentando! Você é um moleque legal, devia desistir das pessoas
também! Desistir do amor! O Amor vai matar o mundo! Há!
A última gargalhada do mendigo foi interrompida pelo toque do celular do Dimi, era o pai dele avisando que estava indo buscá-los. Ele pegou a garrafa de vinho que já estava no finalzinho e entregou para o mendigo:
- Mais um pouco de amizade!
O mendigo agradeceu e foi embora gritando “Cuida garoto, o amor vai matar o mundo!”. Durante todo o caminho de volta ele ficou pensando nessa frase, e murmurou baixinho “é verdade”. Além de ter tido outra idéia... o nome da banda: “Be carefull kid, love's gonna kill the world.”


1 comentários:
AI MEU DEUS, fiquei a fim desse baixista aí hm :x
hahaha cada dia teu livro fica melhor omg *-*
posta o resto logo porque eu to ansiosa pra ler mais!
te amo, sr. elliott smith da literatura. <3
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