Faltavam apenas dois dias para o natal e ele não gostava de pensar nisso. Final do ano é como um juízo final que se repete, todo mundo se arrepende do que fez e faz promessas de ser uma pessoa melhor; perdoam as mágoas, pedem desculpas, abraçam aqueles que há muito já não conversavam mais, etc. Ao mesmo tempo que achava tudo isso uma falsidade ridícula, também achava interessante a idéia de que ainda havia bondade nas pessoas; mesmo que fosse na última semana do ano e no começo do próximo. Mas naquele dia ele estava ansioso para o natal, não que sua opinião sobre tal data tivesse mudado, mas daquela vez as coisas seriam diferentes para ele, ele teria consigo seu tio e seu avô. Tudo tendia a ser bom – mesmo que fosse na última semana de um ano e no começo do próximo.
Enquanto aguardava seu avô, Sr. Paulo, estava sentado folgadamaente no sofá velho com os pés apoiados na mesa de centro. Os dedos da mão direita batiam na xícara que estava na mão esquerda simulando o trotar de um cavalo. Pensamentos tão impacientes quanto o cavalo-da-mão “onde está meu avô?” Ele não chega logo...”. Apenas os pensamentos – sonorizados pelo tal cavalo – que estavam agitados, de resto, ele estava completamente alheio ao mundo. As garotas passavam de um lado para o outro terminando a faxina. Ele continuava sentado ali, involuntariamente, com o pensamento distante.
Infelizmente o avô ainda por chegar não era a única coisa na qual pensava, também freqüentavam muito sua cabeça pensamentos sobre o pai e sobre a mãe. O pai, depois daquela ligação pedindo dinheiro, não entrou mais em contato – ele já estava acostumado a ficar muito tempo sem falar com Sr. Álvares, mas aquela vez estava sendo um pouco mais incômoda “Ele liga pedindo dinheiro e depois não dá mais notícias? Isso tá errado!”; mas outra esperança que ele tinha para aquele natal era a de falar com o pai “Bom, é natal... pais tendem a falar com os filhos no natal. Ele tem que ligar. Assim que isso acontecer vou pedir pra ele comprar um celular, não tem como ficar esperando a boa vontade dele, não. Mas primeiro eu tenho conseguir o dinheiro que ele pediu...maldito dinheiro! Ah, quando ele ligar eu falo com ele.” E além disso, como já disse, também haviam pensamentos sobre a mãe “É...essa ceia só vai acontecer por causa do dinheiro da morte dela, e ele nem vai pode participar! Logo ela, que faria tudo pra passar mais um momento com a gente; logo nós, que faríamos tudo para passar mais um momento com ela, não vamos tê-la no natal. Nem nunca mais. Uma lágrima saltou de seus olhos involuntariamente, mas foi logo enxugada pela manga da blusa “É, Jesus, você esqueceu de fazer estar presente a convidada mais especial no teu aniversário.” Aproveitou a pausa parar tomar um gole de café, que já estava gelado.
Ele não sabia dizer se estava ali há 15 minutos ou há uma hora, mas parecia ser muito mais que isso. O tempo raramente age a nosso favor: nos momentos bons faz questão de andar mais rápido, e nos de ansiedade parece descansar 1 minuto a cada 5 segundos. Ele colocou a xícara em cima mesa onde estavam seus pés e encostou a cabeça no sofá. Depois de um tempo ele também já não sabia dizer se estava dormindo ou acordado, mas adorava aquela sensação; se sentia num texto de Cortázar, podendo fazer o que quisesse. Tocar bateria com sua banda diante de uma platéia enorme, dar um mosh na platéia e cair na grama abraçado com a Luísa, que virava a Amanda e então ouvir uma velha voz conhecida falando “acorda, querido!”, olhar oara cima e reconhecer o dono da voz; aquele velho magricela era seu avô! Ele se levantou num pulo quase derrubando a mesa com xícara e tudo e deu um abraço forte no avô.
- Pô, como você cresceu, cara!
E de fato ele percebeu que tinha crescido. Até onde se lembrava o avô era maior que ele; agora estava menor por um palmo. Era uma sensação engraçada perceber como o tempo havia passado. Mas mesmo assim ele ficou sem graça com o elogio.
- Haha – deu um risinho tímido - impressão sua, vô! Mas me diz, como o Sr. Está? Como foi a viagem?
- Vixe, tem tanta coisa pra contar... pera só um pouco, deixa eu chegar primeiro! E comer alguma coisa, tô com uma uma fome...
Ele acenou a cabeça, apenas. Não conseguia dizer nada e nem havia muito o que dizer. Ele queria que apenas o avô falasse. Ele olhava o avô se perder no corredor em direção a um quarto e achava tudo aqui mágico demais; ele não sabia porquê, mas aquilo o fazia se sentir pequeno, uma criança. Parado no corredor olhando para o avô, que era sua figura paterna, e logo na frente a avó, que se tornara a figura materna, e também haviam as garotas, que depois de tanto tempo de convivência, já eram algo parecido com irmãs (algumas delas, outras ele preferia ver como apenas garotas), ele se sentia como uma família. Era algo diferente da sua realidade, era algo quente; há tempos não sentia algo quente daquele jeito; nem mesmo com a garota sem nome de alguns dias atrás. Pela primeira vez em muito tempo, ele estava confortável consigo e com o mundo – que podia acabar naquele momento que ele não se importaria. Aliás, o mundo deveria acabar; acabar antes que o momento acabasse.
Mas o mundo não acabou, apenas aquele momento. Voltando a fria realidade percebeu que também estava com fome, ainda não havia comido nada. Foi para a mesa esperar o avô. Era tarde demais para um café da manhã, mas cedo demais para o almoço, o que daria tempo para conversarem. O avô puxou uma cadeira na ponta da mesa e sentou-se de uma forma que parecia não descansar há séculos. Depois de quatro anos, finalmente ele tinha a oportunidade de colocar a conversa em dia com o admirável Sr. Paulo, que estava ali, sentado em sua frente. Mas para sua surpresa não conseguia pensar em nada para dizer. Ali, a alguns centímetros de distância estava a cura para a saudades que fora alimentada por quilômetros de distâncias e nem uma mísera palavra vinha em sua boca. Seu vasto vocabulário agora estava reduzido a uma sensação de constrangimento e angústia; mais do que nunca ele pôde ver o resultado da sua auto-exclusão social e dos anos de prática evitando as pessoas. Concluira sem maiores dificuldades que desaprendera a falar com as pessoas e pela primeira vez isso parecia o incomodar. Evitou pensar se o incômodo era causado pela decepção que causara a si mesmo ou pelo fato de poder estar decepcionando o avô. Decidiu repetir uma pergunta antes que aquela fração silenciosa de segundo o matasse.
- Então, vô, você disse que tinha um monte de coisa para contar! Aproveita que o almoço ainda não está pronto.
- Cara, você não acredita como esse país é grande. Só ouvindo eles falarem isso na escola, não te dá noção de nada! Isso daqui é maior do que a gente pode imaginar...é tanta gente, tanta cultura, tanta coisa diferente. – Não importava muito o que o avô estava falando, mas sim o fato d'eles poderem conversar. Ele não estava ouvindo exatamente o que o avô estava dizendo, estava sendo absolvido pela conversa. - Uma vez eu parei numa vila ali no finalzinho do Espírito Santo ou comecinha da Bahia, não sei... nem eles sabem na verdade, mas bom, o legal é que a diversão deles é toda semana fazer competição de quem faz o colar de concha mais bonito. Daí você tem que ver, no domingo de manhã a criançada sai toda pela praia pegar concha para as mães fazerem colares; depois no sábado seguinte eles se reunem e escolhem o mais bonito! Haha, é um barato!
- E o que eles fazem com todos os colares?!
- O pessoal vai juntando, e quando chega época de temporada vão para as cidades grandes do litoral vender tudo. É assim que eles conseguem dinheiro lá! Assim e com a pesca. Ou você acah que as crianças de lá estudam? Se você falar em escola lá eles mal sabem o que é isso! É o que eu tava te falando, carinha, a vida deles é outra! A cultura deles é outra!
- Por isso que é bom sair daqui ou ver como é o mundo lá fora de verdade... aqui a gente fica preso à visão de mundo que as pessoas querem que nós tenhamos. Não temos muita liberdade para pensar por nós mesmos. É escola, é faculdade, é mercado de trabalho e o diabo à quatro. - essa foi uma observação importante que fez a si mesmo sobre as crianças (e os adultos também) daquele vila. Eles não levavam a vida, eram levados por ela e aprendiam a lidar com as situações nas quais ela os colocavam; ele achou aquilo muito interessante e no mínimo uma forma bem menos cansativa dolorosa de se viver. E também, eles não devem pensar sobre o mundo que os cerca, por tanto, não têm porquê sofrer “É... mais uma vez Schopenhauer estava certo: o homem de gênio sofre mais que todos os outros.” O mundo não é só feito disso, não! Por isso que eu te admiro, vô! Haha. Você teve a coragem de sair e descobrir como as coisas são de verdade.
A conversa se prolongou por mais um tempo e depois o almoço finalmente ficou pronto. Enquanto comiam o único barulho que se pôde ouvir era o de garfos e facas batendo nos pratos; todos estavam com tanta fome e tão ocupados comendo que se recusavam a falar. Foi enquanto o silêncio reinava e o sangue descia de seu cérebro para sua barriga que percebeu como, por alguma razão, estava confortável consigo novamente. Ficou pensando sobre isso até concluir que realmente tinha uma certa dificuldade para se comunicar, mas isso não significava que ele havia se tornado uma pessoa vazia, apenas introvertida demais. Aproveitando aquela sensação quente que voltava, acompanhada de estômago e ego cheios, concluiu: “é, eu não emburreci.... hahaha. Como eu sempre digo, se fosse bonito, dominaria o mundo.”


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