Enquanto caminhava para o supermercado, Tom percebeu que todos na rua o encaravam. Merda, o que há de tão interessante para olharem? Continuou andando e quando entrou no supermercado reparou numa senhora no balcão de atendimento ao cliente, gritando que havia recebido troco errado. Esta foi a última coisa que viu antes que os dois seguranças o agarrassem e o jogassem no chão “caralho, esqueci as calças de novo!”. Mas desta vez não bateram nele, preferiram que o psicólogo cuidasse do caso. E foi para lá que o mandaram.
- Por que o Sr. acha que está aqui?
- Porque não sabiam mais o que fazer comigo.
- Mas o Sr. Não acha errado ir ao super mercado sem as calças?
- De forma alguma! Se achasse, não teria feito isso três vezes...
- E você faz isso para agredir a sociedade?
- Claro que não, doutor! Diabo, eu tenho cara de adolescente? São só... calças! Eu tenho preocupações maiores do que calças.
- Me fale sobre elas...
- Eu estou sem emprego, as baratas estão dominando minha casa e o velho Johann ainda quer que eu pague o aluguel! Porra, ele que cobre das baratas.
- Existem milhares de pessoas na sua situação, Tom, e elas não esquecem de pôr a calças. Você não acha que existe alguma outra coisa errada?
- Ok, ok... se você me responder uma coisa, te digo o que quer saber.
- Hmm... vamos ver, pergunte.
- Você não se cansa das pessoas, doutor? Quero dizer, sentado aí o dia todo, falando com doidos e vagabundos...e ganhando mal por isso! Você não se cansa?
- Não, Tom. Eu gosto do que eu faço. Alguns dias eu acordo de mau humor, claro. Mas não posso deixar de trabalhar só por causa disso. As pessoas precisam de mim.
- Aí está a diferença, doutor. Eu me canso do que eu faço.
- E o que faz, já que não está trabalhando?
- Eu acordo, como algum coisa, transo com a minha garota antes que ela vá embora, escrevo alguma merda, como de novo, durmo, se minha garota voltar eu transo com ela de novo e durmo de novo.
- E você nunca pensou em se divertir? Ir ao cinema ao dar uma volta num parque, talvez?
- Isto é diversão?
- Sim! A maioria das pessoas se diverte com isto. Aposto que você também conseguiria se tentasse.
- É aí que está o problema, doutor. As pessoas. Onde eu vou existem pessoas! Isto me deixa extremamente puto da vida. Eu as vejo andando na rua e tenho vontade de atirar em suas cabeças - como se estivesse fazendo um favor a elas. Na verdade, é mais um favor a mim. As pessoas me cansam. Eu já não sei mais quais são legais e quais são chatas; eu sei quais me enjoam mais rápido e quais eu agüento por mais tempo. Mas no final nenhuma delas vai sobrar, no final vou acabar enjoando de mim mesmo. É como o tiro de uma carabina potente de coice forte: você machuca alguém, porém nunca sai ileso. É uma merda! Eu estou andando em direção ao supermercado comprar cervejas e cigarro e lá vem mais um sujeito desajeitado descendo a rua e guardando a carteira no bolso da jaqueta de couro marrom. Dentro do ônibus sempre chega um parando do meu lado e falando comigo. O carro para lavar, contas para pagar, o maldito gato da vizinha que estraga as plantas. A política, o governo. Os ladrões. Quem é quem, meu Deus? Veja, são todos chatos. Estes são dos tipos que eu não agüentaria por muito tempo. Um dia desses tinha uma garota no meu quarto, com a bunda boa, uma foda boa, mas devia ficar de boca fechada. As pessoas deviam reconhecer seus defeitos - eu estava pagando-a para transar comigo. Queria uma puta e não uma psicóloga – e suas obrigações
- E você é assim desde pequeno? Sempre teve esse sentimento em relação às pessoas?
- Não, doutor. Mas não me pergunte como aconteceu. Um dia eu acordei e estava assim, com uma parte grudada na cama de tal forma que não saia mais. A parte de dentro. Não havia mais mãe, nem pai, nem vó, nem família nem nada. Havia somente eu e eu nunca fui grande o bastante dentro de mim, o espaço vazio continua sendo enorme. É assim que tenho me sentido. Agora, doutor, me diga com sinceridade, o que você faria se estivesse no meu lugar? Aposto que não se preocuparia em colocar as calças.
- Sinceramente, Tom, se estivesse no seu lugar eu compraria a carabina mais potente que meu dinheiro permitisse, me sentaria na janela do meu apartamento minúsculo e atiraria na cabeça de todos que passassem pela rua e depois me mataria. Mas como eu sou apenas um doutor, Tom, eu te digo para ir ao parque, ir ao cinema, ou para pelo menos se lembrar de colocar as calças na próxima vez que decidir ir ao mercado, porque eu realmente não quero olhar para a sua cara de novo.
- Ok, doutor. Vou tentar me lembrar das calças.
Tom se levantou e saiu do consultório, tinha uns trocados nos bolsos que seriam suficientes para pagar um táxi até sua casa ou para parar num bar e ir a pé depois disso. Num primeiro momento decidiu parar no bar, mas assim que chegou na porta e ouviu todas aquelas vozes e as músicas animadas vindas de dentro, sentiu vontade de vomitar. Continuou andando e chegou no super mercado, poderia comprar a cerveja lá e depois ir para casa. Nada melhor do que beber sozinho! Ele olhou para baixo para se certificar de que estava usando calças e entrou.
Logo na porta o segurança quase o barrou, mas ele fez questão de colocar as maãos nos bolsos e mostrar que estava usando calças. No balcão de atendimento ao cliente a mesma velha estava reclamando de que a caixa 23 havia lhe dado dois reais a menos no troco enquanto o gerente tentava convencê-la de que só haviam 16 caixas naquela super mercado. Depois o perguntavam o que é que havia de errado com as pessoas.
Andou até o setor de bebidas e faz uma pesquisa de preços para saber quantas cervejas poderia comprar. Merda, teria que abrir mão de 3 latinhas para poder comprar o cigarro. Na fila do caixa o que o confortava era se imaginar atirando na cabeça das pessoas. Na cabeça daquela velha chata que continuava a reclamar da caixa 23 – se ele tivesse dois reais daria a ela só para que calasse a boca -, na cabeça da caixa que segurava a fila para falar com o namorado no celular, na cabeça de todos. Exatamente como tinha descrito ao doutor e como este tinha concordado.
Chegando em casa foi guardar a cerveja na geladeira e depois deitou um pouco para encarar o teto na esperança de que encontrasse alguma coisa diferente. Nada de diferente. Alguns minutos ou horas depois apareceu um barata por lá. E outra. E outra. Agora eram três baratas pairando sobre sua cabeça e provavelmente apostando qual conseguiria cagar no olho dele. Como era inútil tentar matar aquelas baratas, se levantou e foi pegar uma cerveja, mas só para assegurar que nenhuma das três ganharia a aposta. Ligou a televisão mas não havia nada de útil passando, apenas os jornais de sempre.
- Deve ser uma merda- dizia ele alto, porém a si mesmo – ter que escolher qual tragédia vende mais. A criancinha estuprada ou a filha que matou os pais? Hahah, por que eles não falam das pessoas que morrem lentamente, sozinhas, em quartos apertados?
Depois de mais algum tempo fazendo nada sua garota da vez chegou em casa. Seria bem melhor se ela fosse igual às putas e não falasse nada, mas ela fazia questão de conversar e contar sobre seu dia. Que diabos fazia ela pensar que ele estava interessado em saber? Ele nem podia falar nada, porque, afinal, era ela quem estava pagando o aluguel. Além disso, ele com certeza não transaria com as baratas. Esta situação de dependência era frustrante
- Nossa, amor, você demorou tanto para voltar do mercado esta manhã! Fiquei preocupada.
-Os guardas me pegaram de novo...
- Oh meu Deus! O que aconteceu?
- Eu estava fazendo um gesto poderoso de oposição ao sistema...
- Não entendi!
- Oh!... eu estava sem as calças.
- De novo?!
- Eu esqueci, porra! Não venha você me encher de perguntas também.
- Ah, que se dane! Quem apanha da polícia é você.
- Exatamente isso! Agora, se puder acelerar com o jantar eu agradeceria... hoje só comi de manhã.
Ela foi terminar de fazer a janta, ele começou a escrever. Tinha que escrever a mão, porque teve que vender seu computador, ele até gostava mais disso, mas dessa forma era impossível conseguir divulgar alguma coisa. Mas escrevia do mesmo jeito. Quando ela terminou de fritar os ovos não o chamou para comer, pelo menos não a comida. O agarrou pelo pescoço e o arrastou pela cama, ele viu como a única atitude sensata que ela teve naquele dia.
Após transarem ela se levantou, ainda sem roupa, para fumar um cigarro e ele se preparou para dormir. Alguns minutos depois, quando ele já estava quase dormindo ela diz
- Eu gosto do que você escreve, Tom. Acho que esses dois parágrafos podem virar um bom conto, ou até mesmo um livro!
- Eu ficaria contente se conseguisse transformá-los numa página...
- Qual o problema em continuar? Perdeu a inspiração?
- Acho que sim...
E- u não entendo, você começa a escrever como se tivesse tido uma sacada de gênio. Algo grande!
- Mas é mais ou menos isso o que acontece. Mas de repente eu me canso disso também; perde a graça. Igual acontece com as pessoas..
- Hahaha! Você não se cansa de mim nem de transar comigo, não é mesmo, amorzinho?
- Na verdade me canso sim. Mas não consigo encontrar nenhuma outra.
- Que merda, Tom! Como você consegue ser tão vazio?
- Ainda não encontrei nada ou ninguém para preencher. Dê uma olhada na minha lista de livros para terminar de ler, ou de contos para terminar de escrever... milhares de coisas feitas pela metade.
- Ah, que se foda você, eu vou embora!
- Realmente, é o melhor que você faz.
Ela jogou o cigarro pela janela e foi se trocar, saiu em direção à porta como um touro que avança no toureiro, porém com a saia torta e a blusa do avesso. Havia esquecido a calcinha em cima da cabeceira. Após os passos se perderem no corredor o único som que se ouvia era o do fogo comendo o papel do cigarro dele. Quando estivesse disposto pensaria em como iria pagar o aluguel, ou levantaria para pegar uma cerveja, ou compraria uma arma... faria alguma coisa.


2 comentários:
esse é meu garoto! muito bom, irmãozinho. muito muito bom.
velho safado ein
vou roubar esse pra mim, tenho que salvai isso no meu LJ. terá creditos, bróder.
isto é, se voce concordar
Muito bom nobre amigo.
Ao infinito e além com as histórias.
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