domingo, 16 de novembro de 2008

O que você faria se estivesse no meu lugar? II

Era começo de tarde e o bar estava vazio, exceto por Tom. Normalmente, a esta hora, as pessoas normais estão trabalhando, até os vagabundos estão trabalhando – catando latinha, catando papelão ou pedindo esmola. Mas não Tom: ele já estava na quinta garrafa e não sairia de lá tão cedo. A única coisa que agitou o bar foi um homem que entrou no bar tropeçando no degrau:
- Desculpe, desculpe - disse se levantando.
Nem o garçom que enxugava os copos nem Tom olharam para ele. Após um tempo vendo que ninguém lhe dera atenção, se sentou num banquinho perto do balcão, agarrou o sujeito do outro lado e disse:
- Me escute! Por favor, me escute! Eu já fui expulso de outro bar o garçom não queria me escutar...
- Hahaha, esse aí tá pior que eu – disse Tom sem olhar para trás.
O outro cara o ignorou e continuou falando:
- Eu sei que você, como qualquer garçom, deve ouvir centenas de histórias desgraçadas! Aliás, você deve mais ouvir histórias desgraçadas do que servir bebidas por isso que eu disse que garçons são os melhores amigos do homem. Aliás, me dê uma dose do que você tiver de mais forte aí!
O rapaz do outro lado do balcão pareceu perdido por um tempo, mas depois pegou uma garrafa de qualquer coisa e encheu o copo do rapaz, que virou tudo de uma vez só e disse:
- Veja só, antes de ontem eu estava saindo do cinema com minha mulher e meu filho – Tom que até então não tinha olhada para o sujeito, se perguntou que tipo de bêbado tem mulher, filho e dinheiro para ir ao cinema, mas ficou com preguiça de se virar para descobrir qual era este tipo – quando dentro do estacionamento, a caminho do meu carro, vieram dois moleques armados e tomaram minha carteira e meu carro...
- Porra, que tipo de cara é você que tinha até um carro?! - Gritou Tom do outro lado e ainda de costas.
O rapaz parou de falar e olhou para Tom com cara de assustado, este se virou e percebeu que ele estava usando um terno de gente classe-média, gravata e uma camisa amarela manchada de sangue. O cara do outro lado do balcão encheu o copo e continuou a olhar para o homem-social esperando pelo resto da história.
- Espere, espere... antes d'eu continuar, me dá mais uma dose! - e assim foi feito – Pois bem, garçom! Você é mesmo um cara legal! Então, como eu ia dizendo, a pior parte não foi perder o carro e o dinheiro, foi que antes de ir embora, o cara passou a mão na bunda da minha mulher! E eu não fiz nada!
Tom deu um suspiro e acendeu um cigarro; esperava algo maior. Encheu mais um copo de cerveja e esperou pela continuação da história., já que o sangue na camisa ainda não havia sido explicado. O homem-social virou mais uma dose e continuou:
- Aquela noite, quando voltamos para casa levados por uma viatura... por uma maldita viatura, acredita?! Até parece que nós éramos os bandidos! Minha mulher não quis falar comigo. E não manhã seguinte, quando perguntei se ela não ia fazer o café, ela disse “vai fazer você! Água quente não é tão perigoso assim, seu frouxo!” Aquele dia eu nem quis ir trabalhar...
O garçom que antes enxugava os copos e agora fazia nada, olhou para Tom com cara de tédio, e este parecia perguntar porquê ele não tirava aquele cara dali. Para o azar dos dois ele continuou a história:
- De noite, quando fui abraçar meu filho e dar boa noite pra ele, ele disse “não quero seu abraço, papai. Mamãe disse que você é frouxo.”. Nossa, cara, me senti arrasado! Aquilo me matou! Quando cheguei no serviço esta manhã, contei o que havia acontecido para os meus colegas. Todos ficaram me olhando estranho, como se eu merecesse morrer...
- Caralho, quando vai ter um pouco de emoção nesta merda?! - Berrou Tom.
- Calma, parceiro, calma! Deixa eu continuar... quando meu chefe chegou e me perguntou porquê eu tinha faltado, tive que repetir aquela tragédia. Quando terminei, ele se levantou – o rapaz levantou também para dramatizar melhor – e gritou batendo com o dedo no meu peito: Frouxo! Você é um frouxo! Era sua mulher! Sua família! Era sua obrigação defendê-la! Seu frouxo!
- Ei, você usa uma camisa amarela com gravata verde água! Não é preciso muito mais para sabermos que você é um frouxo! Hahaha – disse o garçom.
O rapaz abaixou a cabeça por um momento mas depois prosseguiu:
- Naquela hora um sentimento de fúria me dominou e eu parti pra cima do meu chefe!
O sujeito do outro lado do balcão pareceu assustado e antes mesmo que o rapaz pedisse encheu o copo dele de novo.
E eu apanhei, cara. Tomei uma surra do meu chefe! E enquanto eu tentava chegar na porta, todo colega de trabalho que passava por mim me dava um chute ou um soco. Que merda, cara! Eu sou um frouxo mesmo! Eu não defendi minha família e não consegui me defender! - Havia lágrimas no olho do homem – Espera aí que eu preciso ir ao banheiro.
Quando ele virou as costas, o rapaz que estava atrás do balcão saiu de lá e disse:
- Poxa, esse daí se fodeu mesmo. - Depois disso pegou uma maleta e foi embora.
Voltando do banheiro o homem-social pareceu perdido ao não encontrar seu confidente e sentou-se ao lado do Tom.
- Ei companheiro, cadê o garçom?
- Aquele não era o garçom.
O homem parecia ainda mais perdido.
- Eu sou o garçom - Disse o cara do outro lado do balcão que que agora palitava os dentes.
- Que merda! Aposto que ele vai sair contando minha história por todo lugar... e como você – disse olhando feio para o garço – pôde deixar que ele pegasse seu lugar?!
- Não venha com cara de mau pra cima de mim não, seu frouxo! Você tava louco pra falar, eu sem paciência e ele querendo ouvir! O que mais você queria, hein?
= É, faz sentido... mas por que um encanador estaria interessado na minha história?
- Bom – começou Tom vagarosamente -, quando alguém ganha a vida tirando vômito de bêbado de privadas e pias, este alguém deve querer saber porque as pessoas bebem tanto.
- Oh! Isto foi inteligente! Qual seu nome?
- Tom.
- Me diga, Tom, o que um cara inteligente como você faz dentro d'um bar?
- O mesmo que um cara burro: bebe.
- E o que você faz da vida, Tom?
- Eu vendo artigos, contos, fotos, poesias e tudo o que alguém queira comprar...
- At...
- Não. Tudo menos o cu.
- Hahaha – riu o homem escandalosamente – Por que isso não?
- Para voltar com uma coisa inteira.
- Como assim?
- Escute bem, cara: meu corpo cresceu, meu pau cresceu, minha alma foi corrompida e meu coração está partido. Quando eu morrer, quero que pelo menos meu cu esteja igual ao que era no início.
- Hahah. Você sempre usa essas frases de impacto?
- Na verdade não. Você que é um frouxo e vê impacto em tudo.
- Ah, outra pergunta... o que você faria se estivesse no meu lugar?
- Teria dado uma surra no filho da puta.
- Merda, devo ser um frouxo mesmo! Além disso, estou quebrado! A única coisa que tenho guardada é a urina na bexiga e estou com vontade de mijar de novo. Espero que não precise desses líquidos...
- É, tomara que não.
- Assim que a porta se fechou atrás do homem-social, Tom se levantou e disse para o garçom:
- Ei, cara, ele ficou de pagar a minha. Cobre dele, ok?
- Pode deixar.
Após a confirmação do garçom Tom saiu em direção à sua casa. Talvez passaria na padaria, pois agora teria dinheiro para comprar alguma coisa.

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